A presença de drogas veterinárias em rações pode estar relacionada a diferentes pontos da cadeia produtiva, desde a origem e as características das matérias-primas até situações de transferência não intencional durante a fabricação. Para empresas e cooperativas, compreender essas possíveis fontes e manter controles adequados é essencial para avaliar riscos, selecionar fornecedores e ingredientes com maior segurança e definir estratégias de monitoramento capazes de apoiar a qualidade e a conformidade da produção.
Medicamentos veterinários exercem funções importantes na produção animal. Dependendo da substância e das condições autorizadas de uso, podem ser empregados na prevenção, controle ou tratamento de doenças, entre outras finalidades previstas para produtos veterinários. No Brasil, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) regulamenta os produtos destinados à alimentação animal e mantém requisitos específicos para fabricação e emprego daqueles que contêm medicamentos de uso veterinário.
Isso significa que a presença de uma substância veterinária não deve ser interpretada automaticamente como contaminação ou irregularidade. A avaliação depende da substância, da finalidade do produto, da espécie de destino, das condições de uso e dos requisitos regulatórios aplicáveis.
O desafio muda quando um composto aparece onde não deveria estar ou quando sua presença não estava prevista.
Nesse cenário, há diferentes caminhos possíveis que precisam ser considerados durante uma investigação.
Um deles está associado à própria cadeia de matérias-primas. Ingredientes de origem animal, coprodutos e outros insumos provenientes de cadeias produtivas complexas exigem conhecimento de origem, processo e fornecedor. Isso não significa presumir que determinada categoria de ingrediente contenha resíduos, mas reconhecer que a avaliação de risco precisa acompanhar a história do insumo.
Outro caminho está dentro da própria fabricação.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) descrevem o fenômeno de carryover como a transferência não intencional de resíduos de medicamentos veterinários entre produtos ou lotes. Essa transferência pode ocorrer durante processamento, manuseio, transporte, distribuição ou alimentação na propriedade.
Esse detalhe muda substancialmente a maneira de pensar o controle.
Quando uma fábrica produz diferentes formulações utilizando equipamentos compartilhados, por exemplo, o risco não está somente na composição declarada de cada produto. Sequenciamento de produção, limpeza, características dos equipamentos, armazenamento, transporte e segregação passam a fazer parte da análise.
Em outras palavras: encontrar a origem de uma ocorrência exige olhar para a cadeia como sistema.
A matéria-prima é uma informação, não apenas um insumo
Na rotina industrial, matérias-primas costumam ser avaliadas por parâmetros como composição nutricional, umidade, características microbiológicas, micotoxinas, identidade e especificações físico-químicas. Em uma gestão de fornecedores orientada por risco, essa avaliação também considera o histórico do ingrediente, sua origem, as características do processo produtivo e os registros associados ao fornecedor, ampliando a capacidade de identificar situações que demandam maior atenção.
O MAPA mantém uma relação de matérias-primas, ingredientes e aditivos aprovados para utilização na alimentação animal, além de regulamentar e fiscalizar estabelecimentos e produtos do setor.
Cumprir os requisitos aplicáveis é a base. Entretanto, programas internos de controle podem ir além da verificação documental.
Origem geográfica, tipo de cadeia produtiva, processo de obtenção, histórico analítico, desempenho do fornecedor, mudanças de processo, ocorrência de desvios anteriores e destino da ração são informações que ajudam a determinar a intensidade do controle necessário.
É aqui que aparece uma diferença importante entre analisar tudo da mesma forma e monitorar com base em risco.
Uma cooperativa que recebe matérias-primas de dezenas ou centenas de origens dificilmente obtém a melhor eficiência simplesmente submetendo todos os lotes aos mesmos ensaios. A inteligência está em estabelecer critérios capazes de diferenciar riscos e transformar essa classificação em um plano de amostragem e análise coerente.
Um fornecedor com histórico consistente pode demandar uma estratégia diferente daquela aplicada a um fornecedor recém-homologado ou a um insumo cuja origem ou processo tenham mudado. Da mesma forma, uma ocorrência analítica anterior pode justificar aumento temporário da frequência de testes até que sua causa seja compreendida.
O laboratório, nesse contexto, não substitui a gestão de fornecedores. Ele fornece evidências para torná-la mais precisa.
O risco também pode surgir dentro da fábrica
A presença não prevista de drogas veterinárias em rações não está necessariamente associada às matérias-primas. O próprio processo de fabricação pode representar uma via de transferência de resíduos, especialmente em unidades que produzem diferentes formulações utilizando linhas e equipamentos compartilhados. Nesse contexto, o carryover constitui um ponto relevante para o controle da produção.
FAO e WHO reconhecem que essa transferência pode ocorrer em diferentes etapas da produção e do uso da alimentação animal. Quando não é adequadamente controlada, pode resultar na presença de medicamentos veterinários em rações destinadas a animais não alvo e, dependendo das condições de exposição, ter implicações para etapas posteriores da cadeia de produção de alimentos.
Em uma linha utilizada para fabricar tanto rações contendo medicamentos veterinários quanto formulações que não devem conter essas substâncias, resíduos podem permanecer em misturadores, transportadores, silos ou outros componentes do sistema e ser transferidos para lotes subsequentes. A magnitude desse risco depende de fatores como características dos equipamentos, sequência de fabricação, propriedades dos produtos processados e efetividade dos procedimentos de controle adotados pela unidade.
Medidas como planejamento da sequência de produção, limpeza, flushing e segregação contribuem para minimizar o carryover e devem estar integradas às boas práticas e aos procedimentos de controle da fábrica.
Nesse cenário, eventuais resultados analíticos também precisam ser interpretados em conjunto com informações de rastreabilidade, incluindo o histórico de produção da linha, as matérias-primas utilizadas, os produtos fabricados anteriormente, os procedimentos de limpeza e os registros analíticos disponíveis. Essa integração entre dados laboratoriais e informações do processo amplia a capacidade de identificar possíveis fontes de ocorrência e fundamentar ações corretivas e preventivas.
Da alimentação animal à cadeia de alimentos
A discussão ganha outra dimensão porque a alimentação animal ocupa uma posição intermediária na cadeia de alimentos.
O que chega à ração pode chegar ao animal. Dependendo da substância, concentração, exposição e metabolismo, resíduos podem posteriormente ser encontrados em produtos de origem animal.
No Brasil, o Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC/Animal), coordenado pelo MAPA, monitora uma ampla variedade de drogas veterinárias autorizadas e proibidas, além de outras classes de resíduos e contaminantes em matrizes de origem animal. O programa utiliza limites aplicáveis no país e análises laboratoriais como instrumentos de gerenciamento de risco e segurança química dos alimentos.
Essa relação entre alimentação animal e produto final também é reconhecida internacionalmente. A FAO e a WHO apontam que o carryover inadequadamente controlado pode resultar tanto em exposição de espécies sensíveis quanto na presença de resíduos em carne, leite e ovos, com potenciais implicações para segurança e comércio.
Para empresas inseridas em cadeias exportadoras, essa discussão ganha ainda mais relevância. Mercados podem adotar requisitos distintos para determinadas substâncias e matrizes. Assim, uma ocorrência que aparentemente parece pequena sob uma perspectiva exclusivamente quantitativa pode se tornar significativa quando confrontada com as exigências do mercado de destino.
Controle de resíduos, portanto, não é somente uma questão de qualidade da ração. Pode também se relacionar à conformidade da cadeia produtiva e ao acesso a mercados.
O laboratório como ferramenta de decisão
No controle de drogas veterinárias em rações, a análise laboratorial fornece evidências que ajudam empresas e cooperativas a compreender melhor os riscos associados às matérias-primas, aos fornecedores e ao próprio processo de fabricação. Integrados a um programa estruturado de monitoramento, os resultados podem apoiar a homologação e a reavaliação de fornecedores, verificar ingredientes considerados de maior risco, investigar desvios e avaliar a efetividade dos controles adotados na fábrica.
Um resultado inesperado em determinada matéria-prima, por exemplo, pode indicar a necessidade de aprofundar a avaliação de sua origem ou do fornecedor; ocorrências recorrentes em ingredientes com características semelhantes podem orientar a revisão de critérios de aquisição; enquanto resultados associados a determinadas sequências de produção podem direcionar a investigação para possíveis pontos de transferência dentro da unidade industrial.
Com a consolidação dos dados ao longo do tempo, o laboratório também contribui para a formação de um histórico analítico, permitindo identificar tendências e mudanças no perfil de risco da operação. Dessa forma, os ensaios deixam de atuar apenas na confirmação de conformidade de um lote específico e passam a fornecer informações que qualificam decisões de compra, recebimento, produção e controle, fortalecendo uma gestão mais preventiva e baseada em evidências.
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